Pense e fale no bem

A calúnia pesava agora sobre o casal sem filhos.
O esposo, ciumento, sofria a pressão de cartas anônimas e, na oficina em que trabalhava, um que outro companheiro deitava murmurações, a envene­ná-lo pelos ouvidos:
— Ela é máscara simplesmente.
— Não merece respeito.
— Eu a vi numa casa de perversão.
— Fuja dessa mulher.
Nesse dia, o marido sugestionável veio a saber, por um colega maledicente, que um homem conver­sava em grande intimidade com ela à porta dos fundos.
Armou-se o infeliz, deixou o serviço e correu a vê-la, e, porque não a encontrasse de pronto, em casa, saiu à rua, de ânimo azedo.
Por duas horas, que lhe pareceram longo tempo de agonia moral, procurou-a, através de ruas e pra­ças, mentalizando quadros de estarrecer.
Suarento e dementado, voltou ao recanto domés­tico. Notando sinais de que ela voltara, entrou de manso, pé ante pé…
Junto à porta cerrada do aposento, estacou e ouviu, surpreso, a voz da esposa, a repetir várias vezes: “meu amor”, “meu carinho”, “que alegria de ver-te”, “até que enfim estamos juntos”.
Furioso e irresponsável, o operário saca do re­vólver, vara a porta e, sem um segundo de meditação, descarrega a arma sobre o leito.
Só depois, tarde, porém, veio a saber de tudo. A senhora, que em secreto distribuía a caridade, havia saído com seu velho tio e ganhara um cachor­rinho, ao qual afagava, enternecida… 
*
Sempre que os seus ouvidos forem chamados a notar supostos defeitos ou faltas dessa ou daquela
pessoa, pense e fale no bem, na certeza de que o mal, seja ele qual for, não é digno de atenção, nem traz proveito algum.
 
Livro: Bem-aventurados os simples, de Waldo Vieira pelo espírito de Valérium.