Contra-senso

Alguém bate à porta principesca.

Ela, a dona da casa, atende.

Abre a porta e encontra pobre velhinho à frente.

Andrajoso. Cansado. Feridento.

É um pedinte que roga auxilio.

Fria e insensivelmeflte, ela despede o visitante, dizendo nada ter que possa dar.

E volta. resmungando à intimidade doméstica, maldizendo o infeliz.

— É malandro! — declara.

E acrescenta:

— Para vadios, só a cadeia.

Nisso, pequeno rato desliza-lhe pelos pés.

Assustadíssima, clama por socorro. Chora.

Fecha-se, superexcitada, em quarto próximo, a lastimar-se.

Bate-lhe o coração fortemente, as mãos tremem, a face está lívida e, por fim, depois de um copo d’água, procura o festejado gato de estimação para exterminar o camundongo.

*

Assim são muitas de nossas comoções.

Não vibramos ante os quadros dolorosos que pedem ajuda e agitamo-nos, agoniados, diante de incidentes banais.

*

Amigo, controle a sensibilidade, vigiando rea­ções e policiando as idéias, para que o rendimento maior dos seus dias, à luz do Evangelho Vivo, seja realidade em seu caminho.

Recorde que muita gente na Terra enfeita ga­tinhos prediletos e se enoja diante de irmãos em luta.

E há milhares de almas outras que exibem cla­morosa frieza ante os apelos do bem e mostram imensa emoção à frente de um rato.

Livro: Bem-aventurados os simples, de Waldo Vieira pelo espírito de Valérium.