Gaiola

Na sala faustosa, o pássaro triste e cabisbaixo está na gaiola enfeitada.

O visitante entra, observa e pergunta ao dono da mansão:

— Que tem o canário? Solte-o, meu amigo, ele está muito tristonho!

E o anfitrião responde, abrindo a porta do pe­queno cárcere:

— Veja, ele não sai… É canário de gaiola.

Aí foi criado desde que nasceu. Não sabe viver fora dela…

E fecha a portinhola da prisão do pássaro triste que, mudo e quieto, respira chumbado à gaiola enfei­tada, na sala faustosa…

*

Quantas criaturas humanas existem iguais a esse pássaro?!

Pessoas criadas desde a infância na riqueza e no luxo vivem presas aos empréstimos transitórios do mundo, durante toda a existência na Terra, e, mesmo depois da morte, não se desvencilham de seus antigos pertences e propriedades.

Por mais se lhes abram as portas da liberdade espiritual, não se sentem com força suficiente para desferirem o vôo largo da independência, na am­plidão das Esferas Superiores…

E ficam chumbados à carne passageira, em suas gaiolas mentais de ouro, por muito tempo, muito tempo mesmo, ante o Grande Futuro.

*

Saiba assim, meu irmão, usar os empréstimos da vida, desapegando-se realmente do conforto escravizante, na certeza de que você chegou sozinho à estação do corpo e que sozinho há de sair dela.

Livro: Bem-aventurados os simples, de Waldo Vieira pelo espírito de Valérium.